quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Filme 'poético' sobre autismo divide militantes

Um filme gerou polêmica. O artigo abaixo, publicado na revista New Scientist, fala da sua primeira parte, mas é uma obra dividida em dois momentos. No primeiro, o Autismo "fala" como um monstro que se apropria das crianças. Na segunda metade, as famílias respondem ao "monstro". Feito para emocionar, emociona. Mas não deixa de criar polêmica, pois, para quem não conhece pessoas autistas, pode passar a impressão de algo terrível a se combater - e nem todo mundo tem a mesma visão. Enfim, como dizia Nélson Rodrigues, "toda unanimidade é burra". Felizmente, nossa comunidade de familiares de autistas pode ter muito defeitos, mas burrice não é um deles.

Segue o artigo:

Filme 'poético' sobre autismo divide militantes

| Celeste Biever | 29/9/2009 | New Scientist |

"Não me importa o que é certo ou errado... Eu tentarei roubá-lo de suas crianças e de seus sonhos."


Estas palavras vêm de um curta-metragem chamado "Eu sou o autismo", que acendeu uma polêmica entre as pessoas autistas em todos os E.U.A. e uma entidade que diz representá-las.

O filme traz clipes de crianças autistas e seus pais, com uma voz em off a sugerir que o autismo não tem nenhuma moralidade e destrói as famílias. A entidade Autism Speaks, sediada em Nova York, apresentou a película em 22 de setembro no seu encontro anual "O Mundo focaliza o Autismo".

"Eu sou o autismo" foi feito por dois pais de crianças autistas: Billy Mann, um compositor indicado ao Grammy, produtor da música e membro da Autism Speaks, e Alfonso Cuarón, diretor ganhador do Oscar. A narração é um "poema" pessoal escrito por Mann, diz Marc Sirkin, dirigente chefe da Autism Speaks.

'Embaraçador e ofensivo'

Mas algumas pessoas autistas dizem que o filme projeta delas uma imagem prejudicial e estão protestando on line com uma paródia no YouTube e em um grupo do Facebook. Outros igualmente foram às ruas para protestar:

"Isso faz as pessoas terem medo de nós. O que elas pensarão sobre mim e os outros autistas se derem atenção a esse vídeo assim prejudicial?" - declarou Elesia Ashkenazy, diretora do capítulo Portland (Oregon) da Rede Autista de auto-defesa (ASAN - Autistic Self Advocacy Network). Ela ajudou a organizar um protesto contra o vídeo em Portland, em 26 de setembro.

Ari Ne' eman, o presidente da ASAN, sediada em Washington DC, afirma que o filme é "embaraçador, ofensivo e impreciso". - "Isso tem conseqüências práticas," ele diz. Para aqueles autistas à procura de trabalho ou de relacionamento, ou que tentam ser incluídos na escola, explica, "isso aumenta o medo, o preconceito e o estigma".

Ne'eman, em especial, questiona o trecho do vídeo em que o narrador, representando o autismo próprio, diz: "E se você é casado e feliz, vou me certificar de que sua união vai falhar".

Ne'eman aponta uma pesquisa de 2008 que contradiz essa ideia, realizada pela entidade de apoio a pessoas com deficiência Easter Seals, de Chicago, Illinois. Analisando 917 pais de crianças sem nenhuma necessidade especial e 1652 pais de crianças com transtornos do espectro autista, o resultado foi que 30 por cento dos pais de pessoas autistas estavam divorciados, comparado com 29 por cento dos pais de crianças sem necessidades especiais.

Motivo: lucro?

Sirkin admite que sabe que "não há nenhuma evidência de que ter uma criança com transtornos do espectro autista na família leva a taxas mais elevadas de divórcio", mas diz que a película é "uma posição pessoal, baseada no ponto de vista dos dois pais que fizeram o filme".

Ne' eman igualmente acusa a entidade de usar o "medo e o comércio de piedade" para levantar fundos. Sirkin responde que a Autism Speaks não pagou para o filme ser rodado e que este não pretende ser um levantador de recursos, mas, simplesmente, para conscietização.

A trilha sonora do vídeo de paródia, "Eu sou Autism Speaks", segue: "Eu trabalho duramente para fazer as pessoas acreditarem que suas crianças sofrem mais do que as vítimas do câncer ou da AIDS", "Seu dinheiro cairá em minhas mãos e eu vou falir você" e " Seus defensores não têm dinheiro para me combater".

Direito de falar

Entrementes, a página do Facebook, no protesto contra o filme, o chama de "um grotesco arremedo de um filme, cheio de falsidades, dogmatismo e ódio… Não representa nossas opiniões sobre o autismo e as pessoas autistas. Calunia as pessoas autistas, e nós não o apoiamos".

Sirkin diz que tudo faz parte do tema. "Tivemos tanto retorno positivo quanto negativo. Alguns pais acharam o vídeo inspirador e nos agradeceram por exibi-lo. Outros se sentiram ofendidos. Acreditamos que todas as perspectivas são válidas e devem ser ouvidas e respeitadas. Ninguém pode ser a voz definitiva do autismo."

Morton Gernsbacher, pesquisadora da Universidade de Wisconsin-Madison, diz que o filme pode ser destrutivo. "Uma organização que reivindica dar apoio a pessoas com deficiência e a suas famílias deveria estar familiarizada com as décadas de pesquisa que investigam os efeitos deletérios de menagens de estímulo do medo", diz ela.

Não é a primeira vez que o Autism Speaks provocou a ira das pessoas autistas. Em 2008, a entidade exigiu que um blogueiro autísta tirasse da interent uma paródia de seu website porque teria transgredido direitos reservados. Isto ultrajou a ASAN e muitos outros blogueiros autístas.

Eu sou autismo: transcrição do vídeo

Eu sou autismo.

Sou visível em suas crianças, mas se puder ajudar, sou invisível até ser demasiado tarde.

Eu sei onde você vive, e sabe o que mais? Eu vivo lá também. Eu pairo em torno de você.

Eu não conheço nenhuma barreira de cor, religião, moralidade, nenhuma moeda. Eu falo sua língua fluentemente e, a cada voz que levo embora, adquiro uma nova língua.

Eu trabalho rapidamente. Eu trabalho mais rápido que a AIDS, o câncer e o diabetes pediátricos juntos.

E, se você é casado e feliz, vou me certificar de que sua união falhará. Seu dinheiro cairá em minhas mãos e eu vou falir você para meu próprio lucro.

Eu não durmo, assim eu tenho certeza de que você também não dormirá. Eu tornarei virtualmente impossível para que sua família frequente um templo, uma festa de aniversário, um parque, sem esforço, sem embaraço, sem dor.

Você não pode me curar. Seus cientistas não tém recursos, e eu saboreio o desespero deles.

Seus vizinhos estão felizes por fingir que eu não existo, claro, até que seja com a criança deles. Eu sou o autismo.

Não me importa o que é certo ou errado. Eu tiro meu grande prazer de sua solidão. Eu lutarei para levar embora sua esperança. Eu tentarei roubá-lo de suas crianças e de seus sonhos.

Eu vou me certificar de que, a cada dia em que você acordar, gritará, querendo saber: "Quem cuidará de minha criança depois que eu morrer?" A verdade é que eu estou ganhando e você tem medo, e deve mesmo ter.

Eu sou o autismo.

Você me ignora. Isso é um erro.
'Poetic' autism film divides campaigners
http://www.newscientist.com/article/dn17878-poetic-autism-film-divides-campaigners.html?DCMP=NLC-nletter&nsref=dn17878

No entanto, o artigo acima oculta que o filme tem uma segunda parte, que Elaine Silva traduziu e mandou para a Comunidade Virtual Autismo no Brasil. Na segunda parte, são as famílias que se pronunciam:

E pra você Autismo, eu digo

Como mãe, pai, avô, avó, irmão...

Nós não vamos dormir porque não descansaremos até que você o faça.

Uma família pode ser muito mais forte do que você sequer imaginou e Nós não vamos Nós intimidar por você, nem o amor e forca da Nóssa comunidade.

Eu sou um pai que luta em sua direção e você pode me empurrar, uma, duas, três vezes... que eu vou me levantar e continuar levando a nossa mensagem.

Autismo, você se esqueceu quem somos, você se esqueceu com quem está lidando. Você se esquece do espirito que une mãe e filha, pai e filho, irmãos...

Nós somos os Estados Unidos, a Russia, (nome de vários outros países)

Nós estamos unidos na fé, na força, nos recursos da tecnologia.. .

Nós somos uma consciência que cresce sem você perceber.

Nós temos muitos desafios, mas somos os melhores para superar.

Nós falamos a única língua que importa: O AMOR POR NÓSSOS FILHOS.

Nossa capacidade de amar é maior do que a sua capacidade de nos dominar.

Autismo, você é ingênuo, você está sozinho!

Nós somos uma comunidade de guerreiros, nós temos a voz.

Você pensa que, porque alguns dos nossos filhos não falam, nós não podemos ouvi-los?
ESTA É SUA FRAQUEZA.

Você pensa que, porque o meu filho vive atrás de uma parede, eu vou ter medo de derrubá-la com as minhas próprias mãos?

Você não foi propriamente apresentado à nossa comunidade. Nós somos Pais, Avós, Amigos, Professores, Irmãos, Pediatras, Cientistas, Terapeutas.. .

Autismo, se você não está com medo, deveria estar... Quando você pegou o meu filho, você esqueceu que pegava a mim também.

Ei, Autismo... Você esta ouvindo?


2 comentários:

muriloq disse...

Eu e a minha mulher assistimos ao vídeo no início da semana e o achamos - com o perdão da palavra - ESCROTO.

Até "entendo" a mensagem que gostariam de passar - lidar com o autismo é muito difícil mas nossas famílias são fortes e determinadas o suficiente pra isso -, mas acho que o vídeo em si foi tremendamente infeliz.

Primeiro com essa história de personificar o autismo como se fosse o Diabo falando. Depois por passar uma idéia de que os pais e a família é que sofrem, ficam com vergonha, ficam cansados, e nem por um momento pensar no sofrimento dos autistas propriamente ditos.

Depois porque não é como se existisse uma criança normotípica "presa" dentro dos nossos filhos. O autismo / diabo não sequestrou nossos filhos. Você não vai tirar a capa de autismo e encontrar uma criança normal por baixo. Ser autista é parte do que os nossos filhos são. Eles evoluem, aprendem, crescem, sim, mas isso não se dá limando/cortando o autismo fora como se aquilo fosse só uma casca ruim.

Tratar o autismo como um inimigo terrível do jeito que o filme faz só serve pra deixar famílias assustadas, e pra dar desculpas para as outras pessoas acharem que nossos filhos são horríveis e que conviver com eles é um sofrimento, como se ter autismo fosse a mesma coisa que estar possuído por um inimigo terrível.

Não tem nada mais distante do que eu sinto e penso sobre o autismo e o Max do que isso. Eu não sou nem quero ser "um guerreiro, um herói porque tolero viver com uma criança autista". Eu sou um pai muito feliz com o filho que tenho, e que vai fazer todo o possível para ele desenvolver todo o potencial que ele tiver, seja esse potencial enorme ou minúsculo - como aliás faria com qualquer filho, autista ou não.

muriloq, pai do Max

Aracy Tereza de Oliveira disse...

Não sei em que um vídeo tosco como esse pode ajudar.Estigmatiza quem já é estigmatizado,enche os leigos de dúvida em vez de explicar algo e faz com que nos sintamos a pior das criaturas por termos filhos autistas.Vergonhoso se empregar dinheiro numa porcaria inútil,estéril e mentirosa.Como mãe de uma criança autista,só lamento.